Abre num novo separador

Festival FolkCelta 2025 em Ponte da Barca

Cartaz

Festival FolkCelta 2025 em Ponte da Barca

Programa

25 de julho – Sexta-feira

Zezé Fernandes

Emmy Curl

A Garota Não (Com a participação especial das Cantadeiras de São Martinho de Crasto)

26 de julho – Sábado

Mosquera Celtic Band

Ana Lua Caiano

Óscar Ibáñez & Tribo (Com os convidados especiais: Daniel Pereira Cristo e Gaiteros de Bravães)

FolkCelta 2025: Quando Ponte da Barca se transforma num ritual de música e raízes

Há festivais que se vivem com os pés no chão e o coração nas alturas. O FolkCelta é um desses. Não tem as multidões das grandes capitais nem as luzes histéricas dos megaeventos. Mas tem outra coisa — alma. Em Ponte da Barca, entre o rio Lima e os montes verdes que parecem abraçar o céu, o FolkCelta volta em 2025 com um cartaz cheio de autenticidade, encontros improváveis e sons que ressoam mais fundo do que parece à primeira vista.

Durante dois dias — 25 e 26 de julho — a vila minhota transforma-se num palco a céu aberto, onde a tradição e a modernidade dançam de mãos dadas. É mais do que um festival: é um reencontro com aquilo que nos liga à terra, às vozes de antigamente, e à coragem de experimentar o novo sem esquecer de onde viemos.

Sexta-feira: vozes femininas, raízes profundas

O primeiro dia arranca com Zezé Fernandes, uma voz de afectos que traz consigo uma aura tranquila e profundamente humana. O seu timbre quente e os arranjos delicados criam uma ligação imediata com o público — daquelas que não precisam de filtros nem pirotecnia. É voz e silêncio. É pausa e presença.

Segue-se Emmy Curl, nome artístico de Catarina Miranda, que mistura o etéreo com o eletrónico, o folk com a pop alternativa, tudo embalado numa estética muito própria — quase cinematográfica. É daquelas artistas que nos faz parar para escutar, não por imposição, mas por curiosidade sincera. E a verdade é que há sempre qualquer coisa na sua música que soa a confissão sussurrada.

A fechar o dia, uma atuação com peso emocional e significado coletivo: A Garota Não, acompanhada pelas Cantadeiras de São Martinho de Crasto. Esta fusão entre uma das vozes mais conscientes da nova música portuguesa e um grupo de mulheres que mantêm viva a tradição do canto popular não é apenas música — é memória, é protesto, é ternura. Um daqueles momentos em que apetece estar de pé, em silêncio, a sentir tudo.

Sábado: gaitas, fusões e um certo espírito tribal

O segundo dia começa com a energia contagiante da Mosquera Celtic Band, que já há vários anos se destaca por pegar nas sonoridades celtas e dar-lhes uma nova vida — quase rock, quase dança, mas sempre com alma. É um arranque para quem gosta de festivais com movimento, onde o corpo também participa na experiência.

Depois, chega a vez de Ana Lua Caiano — e aqui, o ambiente muda. Não desacelera, mas adensa-se. A artista mistura canto tradicional português com eletrónica experimental, criando camadas de som que se sobrepõem como memórias a surgir umas sobre as outras. O palco ganha uma textura diferente. E de repente, estamos todos numa espécie de transe melódico.

Para encerrar, uma explosão de tradição com Óscar Ibáñez & Tribo, que trazem para o palco não só uma viagem pela música celta, mas também convidados especiais como Daniel Pereira Cristo e os Gaiteros de Bravães. Gaitas de foles, percussões, vozes cruzadas — tudo contribui para um final épico, daqueles que se guardam para contar.

Ana Lua Caiano: entre o passado e o futuro

O nome dela já se ouve com frequência em rádios alternativas, plataformas digitais e nos ouvidos atentos de quem anda à procura de coisas novas — mas com substância. Ana Lua Caiano tem uma forma muito própria de compor: mistura poesia quase crua com batidas eletrónicas, harmonias tradicionais e fragmentos de vozes antigas. É como se pegasse num baú antigo e o ligasse a um sintetizador.

O mais interessante é que a sua música não se limita a agradar. Ela provoca. Obriga-nos a pensar, a escutar melhor, a reconhecer expressões e sonoridades que julgávamos esquecidas. E num festival como o FolkCelta — onde a ponte entre o antigo e o contemporâneo é a própria essência — Ana Lua Caiano encaixa como se fosse feita à medida.

Entre o sagrado e o profano — e ainda bem

O FolkCelta não é sobre números. Não é sobre trending topics. É sobre reencontro. Gente que vem de longe para sentir o que já quase se perdeu — a verdade simples de uma voz no escuro, o sabor da terra molhada depois do calor do palco, os abraços reencontrados à beira-rio, com a música como desculpa e razão.

Ponte da Barca recebe este festival não como quem organiza um evento, mas como quem convida amigos para jantar. Há comida boa, artesanato autêntico, ambiente familiar. Não há pressas. Não há vedações entre palco e público. Há, acima de tudo, um respeito visceral pela música e pelo que ela representa.

FolkCelta 2025 — não é só para ouvir, é para sentir

Se nunca foi ao FolkCelta, este ano talvez seja o momento. Não porque o cartaz seja “imperdível” — embora o seja. Mas porque, às vezes, o que precisamos não é de mais estímulo. É de pausa. De sons que ecoam. De palavras que contam. De vozes que lembram.

Deixe-se levar. Traga um agasalho para o fresco da noite, calçado confortável para as danças espontâneas, e uma mente aberta para o que der e vier. Porque no FolkCelta, como na vida, o melhor acontece quando menos esperamos.

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